Santa Sara Kali
Tu Sara Kali que
estas no céu Olha para nós teus filhos que estamos aqui na terra, Nos cubra com
sua misericórdia e amor, Que o seu manto nos envolva todos neste momento,
Tirando de nos todas as tristezas, as doenças, as invejas, as magoas. Tu que
sofreste em vida, sabe o que cada um de nós esta passando. Nos de força para
superarmos todas as provações e as dificuldades, Que envolvidos por seu amor,
sairemos ilesos de tudo isso. Tu minha Mãe Sara! Nos conceda saúde, felicidade,
harmonia, prosperidade, amor, fé e paz de espírito. Segure em minha mão e como
uma mãe bondosa que olha para uma criança nos leve para um caminhos que devemos
trilhar. E nunca nos deixe cair nos os caminhos que nos levara para longe de
ti. Santa Sara que eu seja digna do seu amor, e de sua proteção. Abençoe minha
vida, a de minha família a de meus amigos e dos meus inimigos.para que assim
ele possa distanciar de mim, e não mais me direcionar nem um mal. Permita que
eu beijo suas mãos e o seu coração. Que eu seja sua filha abençoada para todo
sempre. Amém.
Todos os anos, nos dias 24 e 25 de maio, milhares de Ciganos reúnem-se
na cidadezinha de Sainte Maries de Ia Mer, na região da Camargue, sul da
França, com o objetivo de cultuar Santa Sara, a santa católica da sua devoção.
Toda a história das origens de Sainte Maries de Ia Mer está, na verdade,
envolta nas brumas misteriosas do mito. Conta-se que, lá pelo ano de 48 depois
de Cristo, uma barca aportou às margens do Mediterrâneo no lugar onde hoje se
situa Sainte Maries de Ia Mer. Expulsos da Palestina, ou incumbidos pelo Cristo
de propagar no mundo a fé cristã, estavam reunidos nessa barca vários
personagens bíblicos: Maria Jacobina, a irmã da Virgem Maria, Maria Salomé, a
mãe dos apóstolos Tiago e João, Maria Madalena, Marta, Lázaro, Maximino... e a
serva das santas, uma negra de nome Sara. É Sara que os Ciganos vêm venerar
todos os anos, por ocasião da grande peregrinação de 24 e 25 de maio. Mas Sara
estava mesmo naquele barco, ou já habitava a Camargue no momento da chegada das
santas, tendo decidido, por amor e piedade, ajudá-las nos caminhos difíceis do
exílio? As lendas se misturam e as versões mais diversas são contadas. Alguns
dizem que ela era uma antiga rainha das terras da Camargue; ou uma egípcia ou
negra africana transladada para a outra margem do Mediterrâneo; ou uma
sacerdotisa do antigo culto ao deus Mitra, de origem oriental; outros ainda
pensam que Sara personifica uma antiga divindade fe¬minina telúrica dos celtas,
uma espécie de Grande Mãe ligada à terra. Sara, na verdade, encarna a síntese
de um mistério feminino cultivado ao longo de muitos séculos na região de
Camargue, onde, como comprova a história, foram estabelecidas sucessivamente
várias colônias de civilizações antigas a egípcia, a cretense, a fenícia e a
grega. Vindos do mar em suas embarcações, grupos dessas culturas subiam o rio
Ródano e penetravam fundo nas terras que são hoje a região da Provença, sul da
França. Toda uma linhagem de poetas e menestreis provençais cantou a história
de Sara, que teria sido, segundo eles, uma das primeiras convertidas ao
cristianismo após a chegada dos exilados da Terra Santa. Por que os Ciganos a
escolheram como santa padroeira? Para se responder a pergunta é preciso voltar
no tempo, até as origens do Povo Cigano e sua chegada ao mundo ocidental.
Sabe-se hoje que os Ciganos são originários do norte da índia. Seus dialetos
todos deitam, sem sombra de dúvida, suas raízes no sânscrito arcaico.
Localiza-se o início de suas migrações há cerca de mil anos, entre as margens
do rio Indo e os confins do Afeganistão. Mas a//pré-história"do Povo
Cigano é ainda obscura, e não se sabe quais as causas que o levaram a abandonar
sua pátria para penetrar cada vez mais na direção do oeste. Os Ciganos aparecem
a partir de 1322 na Grécia; na Valáquia em 1370. Em 1419 chegam à França. Há
registros da sua presença na cidade provençal de Aries em abril de 1438. Isso
os situa a apenas dez léguas de Sainte Maries de Ia Mer, dez anos antes da
descoberta, neste último lugar, das alegadas relíquias das santas Maria
Jacobina e Maria Salomé e também das relíquias de Sara. Os alegados despo-jos
das duas primeiras foram guardados numa grande arca, colocada hoje num nicho na
parte superior da Igreja de Nossa Senhora do Mar, arca esta exposta aos fiéis
ao lado do altar principal durante a festa de 24 e 25 de maio. Os despojos de
Sara foram sepultados na cripta da Igreja e é ali que se pode visitar, ao longo
de todo o ano, a imagem negra que representa Santa Sara. Embora orgulhosos da
sua misteriosa tradição religiosa original, fazem questão de preservar bem
longe dos olhos dos não gadjos" os Ciganos costumavam oficialmente
converter-se à religião dominante Í35 países onde se estabeleciam. Tal prática
os ajudava a se defender melhor contra os preconceitos de que, em geral, eram
vítimas. Foi ;i=im que na Europa e particularmente na França, eles se
declararam zéis católicos. A partir disso, estabelecer, pelas vias do
sincretismo, una relação devocional com Santa Sara não foi difícil. Sara, como
eles, tem origens obscuras e a mesma pele morena trigueira dos povos da India.
Como se isso não bastasse, é uma santa atípica, já que relacionada a um grande
número de mitos pagãos. Considerada pela Igreja católica uma santa de culto
local, que jamais passou processos regulares e completos de canonização, a
figura de Santa Sara liga-se também a uma outra tradição cristã medieval que
foi de grande importância na Europa: o culto às assim chamadas "virgens
negras". Centenas dessas santidades femininas, representadas por estátuas
de cor negra, eram adoradas na Idade Média por fiéis católicos que
transformaram as igrejas onde elas se encontravam em verdadeiros santuários de
peregrinação. Na França e na Espanha, principalmente, várias dessas imagens
chegaram até nós e podem hoje ser admiradas, como é o caso de Nossa Senhora de
Montserrat, em Barcelona; Nossa Senhora de Liesse; Notre Dame dês Mures, em
Cornas; Notre Dame de Marseille, em Limoux; Notre Dame de Ia Negrette, em
Espalion; Notre Dame de Mauriac; Notre Dame de Ia Délivrance, em Douves; Notre
Dame de Puy; etc. Na realidade, todas essas virgens negras substituíram, num
con¬texto cristão, as antigas divindades femininas pagas pertencentes às
religiões pré-cristãs ligadas à Grande Mãe, a terra. Também os Ciganos traziam,
das suas longínquas terras de origem, divindades femininas telúricas,
representadas quase sempre por imagens negras. Tais arquétipos foram rapidamente
associados à figura escura de Santa Sara, à maneira do que aconteceu no Brasil
entre as divindades do panteão africano e os santos católicos. Por isso, até
hoje muitos Ciganos se referem à santa com os apelativos de Sara, a Negra, e
Sara, a Kali. Kali, como se sabe, é uma das principais deusas do panteão da
índia, identificada aos aspectos criativo e destrutivo do princípio feminino. O
momento culminante do culto a Santa Sara acontece na madruga¬da de 24 de maio e
durante todo esse dia. A cripta subterrânea da igreja, localizada exatamente
sob o altar principal e onde fica a estátua de Sara vestida de brocados e
coberta de jóias, transforma-se numa literal chama ardente. A quantidade de
velas acesas é tão grande que a tem¬peratura ambiente mais parece a de uma
sauna escaldante. Somente por poucos minutos consegue-se permanecer ali dentro.
Mesmo assim, a cripta permanece repleta de fiéis Ciganos por toda a madrugada.
É impressionante, naquela luz espectral das velas, testemunhar as manifestações
de fé desse Povo errante. Muitos, aos prantos, abraçam a estátua como se
quisessem ser acolhidos no seio da Grande Mãe. Uns oram, outros invocam, outros
parecem estabelecer um diálogo com a santa, falando nas suas línguas
incompreensíveis para os poucos não-ciganos que se aventuram a penetrar no
local naquela noite. O clima geral é quase o de um transe coletivo. Conta-se
que, no passado, aconteciam ali dentro transes completos, quando alguns, de
repente, "incorporavam" antigas divindades da religião Cigana diante das
quais os demais se prostravam em atitude de respeito e veneração. As
autoridades católicas, particularmente complacentes nessa região e em seu afã
de catequizar os Ciganos, pouco ou nada interferiam nessas manifestações, já
que tudo acontecia em nome de Santa Sara. Hoje, acompanhando curiosamente o
crescente processo de sedentarização do povo Cigano, transes desse tipo são
muito raros. Mas a intensa vibração de magia ainda permanece e qualquer pessoa
razoavelmente sensível pode percebê-la. Às 15 horas do dia 24, uma procissão
dos Ciganos sai da igreja para levar a estátua de Santa Sara ao mar. Um
verdadeiro rio de gente Ci¬gana move-se pelas ruas de Sainte Maries de Ia Mer.
Carregam .istosos estandartes e adereços, como miniaturas de antigas carroças Ciganas.
A imagem da santa é protegida por um grande número de râvaleiros não Ciganos,
homens brancos da Camargue, vestidos de preto e carregando na mão direita uma
espécie de longa lança. São os membros da Ordem de São Jorge, uma confraria
cristã fundada em 1512, tradicionalmente encarregados da manutenção da ordem
pública durante eventos como esse. Padres católicos, vestindo hábitos claros,
oram e cantam hinos íitúrgicos com o uso de megafone, esforçando-se para
incrementar o aspecto cristão da procissão. Mas o que sobressai, é mesmo a
música dos Ciganos. Da procissão participam os vários grupos musicais que,
auxiliados pela cantoria e pelas palmas os fiéis, imprimem à festa religiosa um
incrível ar de imenso tablado andante de flamengo andaluz. Pouco a pouco a
procissão chega ao mar Carregado por oito Ciganos robustos, o andor com a santa
balança no ar quando os portadores pisam na areia da praia. Todos avançam mar
adentro até a água chegar à cintura. E aí, algo mágico acontece; um silêncio
vibrante parte daqueles que estão mais próximos da santa e vai, como uma onda,
tomando conta da multidão que se imobiliza. O silêncio dura menos de um minuto,
mas tem a força de uma eternidade. Enquanto dura, o tempo pára e Santa Sara,
saída das profundezas da sua cripta, parece uma criatura viva a contemplar o
mar até onde ele alcança o horizonte. O burburinho reaparece e a procissão faz
o caminho de volta. No dia seguinte pela manhã, ocorre outra procissão, que
também chega até o mar. Agora é a vez das imagens das santas brancas, Maria
Jacobina e Maria Salomé, visitarem as águas do Mediterrâneo. As águas que há
quase dois mil anos, conta a lenda, trouxeram-nas da distante Palestina até as
terras da Camargue. Muitos Ciganos integram também essa procissão. Mas esta,
embora possa competir em beleza com a anterior, não tem mais aquele fascínio
quase pagão. Trata-se agora de uma festa devocional inteiramente cristã. Na
tarde desse dia 25 de maio, os Ciganos pagam com alegria um tributo à Igreja
católica pela liberdade, proteção e acolhimento que esta lhes proporciona.
Atendendo a um apelo das autoridades eclesiásticas, líderes Ciganos e comitês
representativos dos diversos grupos de peregrinos reúnem-se no interior da
Igreja de Nossa Senhora do Mar. Diante do altarmor, fazem discursos
emocionados, cantam ave-marías e outras músicas litúrgicas traduzidas para
línguas Ciganas, prestam depoimentos onde afirmam sua fé e descrevem
sinceramente os benefícios trazidos por sua aproximação ao catolicismo. No dia
seguinte, as caravanas vão embora. Levam com elas o véu de mistério que durante
uma semana cobriu Sainte Maries de Ia Mer. A pequena cidade volta a ser um
balneário marítimo pronto para acolher, a partir de agora, as hordas de
milhares de turistas, em sua maioria alemã que, não se sabe exatamente por que,
elegeram-na como um dos seus lugares preferidos para as férias de verão. Que
Santa Sara proteja os seus Ciganos, fazendo com que, mesmo confinados no
interior dos prédios de cimento armado da moderna Europa e das Américas, eles
pelo menos nunca percam o seu maior bem: a liberdade que certamente mora em
cada uma das suas almas.

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